A rotina de trabalho começa cedo na fazenda Pulquéria. Mais precisamente às 06h00, com a Cerimônia do Mate. É a hora em que Fernando Costabeber, sua filha Fernanda e o marido dela, André, recebem os colaboradores na sede da propriedade para discutir e antecipar problemas, avaliar prioridades e definir os passos do dia. A cuia passa de mão em mão, de patrões e funcionários, e todos falam. A conversa azeita as engrenagens das operações diárias, e certamente é um dos fatores que fazem da Pulquéria um dos destaques da pecuária gaúcha, em termos de rentabilidade e sustentabilidade.
Localizada no município de São Sepé, no coração do Rio Grande do Sul, a Pulquéria está nas mãos da família Costabeber há pouco mais de 50 anos. Inicialmente, fazia agricultura e o ciclo completo da pecuária, mas aos poucos foi se especializando apenas em recria e engorda de gado. “Não dá para ser muito bom em tudo. Nosso foco é terminação intensiva a pasto”, conta Fernando. Aos 70 anos, o empresário era o mais animado na Cerimônia do Mate presenciada pelo NPagro no início de dezembro, a convite do principal cliente da Pulquéria, a Minerva Foods, maior exportadora de carne bovina da América do Sul.
Cada encontro matutino é a confirmação do sucesso de um modelo que foi construído aos poucos, e Fernando, que é veterinário, também procura nessas conversas indícios de inovações capazes de consolidar ainda mais os conceitos que há décadas vem implementando na Pulquéria. Conceitos que fizeram da propriedade um exemplo de sustentabilidade na pecuária muito antes de o termo ter se tornado popular, sem perder de vista os desafios constantes de ampliar a produtividade, reduzir custos e garantir boas margens de lucro.
Nesse sentido, Fernanda e André também são protagonistas para os resultados positivos que tornam a fazenda uma dos poucos exemplos bem-sucedidos do segmento a trabalhar sem financiamentos bancários, apenas com recursos próprios. “Tudo o que ganhamos, investimos”, afirma Fernanda. Para ganhar tempo e não correr o risco de prejudicar a rotina da Pulquéria, ela, o marido e os dois filhos se mudaram há alguns anos da zona urbana para uma casa ao lado da sede da fazenda, onde vivem o pai e a mãe.
Meio ambiente e bem-estar animal estão no DNA da Pulquéria, que conta com uma área útil de 1,3 mil hectares por onde se espalham pouco mais de 11 mil cabeças de gado, de raças britânicas bem adaptadas ao clima Mediterrâneo da região. A fazenda mantém uma fábrica própria de ração, abastecida com farelos de milho, arroz e trigo, além de cevada e aveia, e um sistema de auto-consumo, com 89 piquetes de engorda. Não se trata de um confinamento clássico, mas com isso o ganho de peso dos animais é muito acima da média, e no fim do dia os animais vendidos pela Pulquéria chegam a ser negociados a preços normalmente 25% acima da média do mercado.
Rastreabilidade, acabamento, idade e as parcerias da fazenda colaboram para essa diferença, o que não significa que a fazenda viva sob a ditadura das margens de lucro. Ao longo da visita no início de dezembro, Fernando e Fernanda repetem diversas vezes que, no modelo de produção que desenvolveram, o conforto dos animais é prioritário. Há um certo equilíbrio entre bois castrados e inteiros, uma vez que a castração estressa o gado e tem custo elevado, os animais têm liberdade para conviver nos grupos de sua preferência e os embarques para os frigoríficos são realizados apenas uma vez por semana, também para evitar nervosismos desnecessários.
Por essas e outras características, algumas desenvolvidas após visitas a propriedades na Austrália, na Argentina e no Uruguai, Fernanda define o sistema de produção da Pulquéria, que tem 17 funcionários no total, como um “green lot”, algo como um confinamento de gado a pasto, e neste momento a fazenda está particularmente bem posicionada para o processo de virada do ciclo da pecuária no país, com a consequente queda na oferta de bois. “Nunca tivemos tanto gado”, diz ela.
Bom para a Minerva, que compra a maior parte dos animais da fazenda e que acaba de incluí-la no Programa Renove, que incentiva boas práticas de manejo bovino em fornecedores de gado e lhes confere um selo de baixo carbono quando as emissões estão pelo menos 20% abaixo da média nacional estabelecida na linha de base do padrão de certificação “Carbon Neutral and Low Carbon Standard”, da Food Chain ID. É o caso da Pulquéria.
PROGRAMA RENOVE
Atualmente, o Renove conta com 145 propriedades participantes no Brasil (31) e no Uruguai (108). Em 2025, o projeto foi ampliado para o Paraguai, com seis fazendas, e neste ano chegará à Argentina. “Projetamos uma expansão contínua, certificando novas fazendas e diversificando geograficamente as regiões atendidas. Temos como meta atingir o mínimo de 50% dos animais adquiridos de fazendas participantes do Renove até 2030”, informou a Minerva.
Segundo a empresa, as boas praticas de manejo estimuladas pelo Renove, que vão desde a recuperação de pastagens até sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta, a produtividade também é beneficiada, e o peso médio de abate das fazendas participantes do programa é, em média, 12,5% superior ao peso médio de abate da empresa como um todo. “Além disso, a idade média de abate alcançada pelas fazendas do Renove é dois meses menor que a média da Minerva, chegando, em alguns casos, até seis meses de diferença”, realçou.
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