Argentina desacelera venda de trigo e aguarda recuperação dos preços

Retomada das compras por parte do Brasil é tida como certa, mas produtores já sentem a pressão pela proximidade da safra de soja e milho
Fernando Lopes
Colheita de trigo (Foto: Gilson Abreu/AEN)

Responsável por comprar metade de todo o trigo que a Argentina exporta, o Brasil vai acelerar suas importações a partir de fevereiro. Tradicionalmente, um terço das importações que o país faz do vizinho ocorre no primeiro trimestre do ano.

Conhecedores desse movimento, produtores e tradings argentinas começaram a restringir as ofertas de venda para tentar forçar uma valorização dos preços. Ao longo de janeiro, os preços em Chicago já subiram 3%, passando de US$ 200 para US$ 206 a tonelada.

Já no mercado local, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires reporta que os negócios à vista seguem praticamente estáveis, oscilando entre US$ 222 e US$ 223 por tonelada ao longo das primeiras semanas do ano.

Segundo um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o atual patamar de preços já entrega uma remuneração razoável aos produtores argentinos. Em maio de 2024, quando o preço futuro chegou a US$ 240 por tonelada, os agricultores aproveitaram o momento e comprometeram cerca de 12% da safra.

Depois disso, o mercado recuou. Segundo o USDA, quando os preços à vista foram a US$ 192 na primeira semana do ano, as ofertas de venda praticamente deixaram de existir. Hoje, a comercialização está 12 pontos percentuais inferior à registrada no mesmo período do ano passado.

“O problema é que os exportadores e os tradings do país precisam movimentar a maior parte do trigo antes de março e abril para abrir espaço para a nova colheita de milho e soja. Os agricultores vão querer preços mais altos antes de vender mais, especialmente sabendo que o Brasil estará ativo nos próximos meses”, diz o relatório do USDA assinado por Kenneth Jospeph.

Produção argentina

Oficialmente, a safra argentina de trigo é estimada em 17,6 milhões de toneladas. Contudo, todas as empresas privadas apontam para números consideravelmente maiores, variando entre 18 milhões e 18,8 milhões de toneladas.

A colheita na Argentina já chegou ao fim. Ao longo da safra, o clima irregular fez com que as projeções fossem ajustadas em diferentes ocasiões. Em maio do ano passado, pouco antes do plantio, o clima seco, os preços baixos e os fertilizantes em alta apontavam para uma área menor. 

Em abril, as chuvas inesperadas trouxeram uma boa umidade do solo, enquanto uma alta no preço internacional em conjunto com a desaceleração dos fertilizantes, em especial os nitrogenados, encorajou os agricultores. 

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