A tarifa adicional de 50% que será imposta pelos Estados Unidos às importações de produtos do Brasil a partir de 1º de agosto vai mais do que “apenas” interromper o crescente fluxo de vendas de tilápia brasileira para aquele país. Exigirá ajustes profundos nas operações das empresas exportadoras da proteína, que nem de perto têm alternativas à altura do mercado americano no exterior, e levará à suspensão de investimentos em expansão, com reflexos negativos ao longo de toda a cadeia produtiva.
Exemplo desse movimento é a Fider Pescados, empresa do grupo M.Cassab que é responsável por cerca de 30% das exportações brasileiras de tilápias. Com uma fazenda localizada no município de Rifaina, no interior de São Paulo, a companhia aproveitou como poucas o incremento dos embarques para os EUA nos últimos anos, e com os resultados alcançados planejava para este ano investir em uma nova unidade em Pedregulho, a cerca de 25 quilômetros de distância de onde já produz.
“Todos os nossos investimentos em expansão estão em compasso de espera”, afirmou Juliano Kubitza, diretor da Fider, ao NPagro. Com o aporte de cerca de R$ 5 milhões na nova fazenda, em parte para atender à demanda dos clientes dos EUA, a Fider praticamente dobraria a ocupação de seu frigorífico em 2025 – que tem capacidade para 20 mil toneladas por ano, mas atualmente roda com pouco menos de 10 mil, que é o volume gerado pela fazenda de Rifaina.
A companhia já tem assinado por 20 anos um contrato com o governo federal para poder usar a área de cerca de 2 hectares de águas em que pretendia instalar sua fazenda na represa de Estreito, em Pedregulho, e no momento ainda não sabe qual será o futuro do projeto. Outro plano que estava na gaveta, para a construção de uma fábrica de rações para os peixes, também continua sem data para ser executado, tendo em vista a correção de rota que terá que ser feita para amenizar os danos causados pela barreira nos EUA.
Kubitza reforçou que o Brasil não tem à disposição opções ao mercado americano no exterior. Outros países da América Latina, como a Colômbia, também exportam, a Ásia é grande produtora e exportadora de tilápia e a União Europeia mantém seu mercado fechado para os pescados brasileiros desde 2017. Assim, resta direcionar a oferta que seria exportada para o próprio mercado brasileiro. Como apenas 4% da produção total de tilápia do país é destinada ao exterior, é possível buscar esse redirecionamento, mas com prováveis reduções de preços e margens.
Para a Fider, a tarefa será ainda mais complicada, já que a empresa exporta 50% de sua produção – e 90% dessas exportações são para os EUA. Segundo Kubitza, mesmo com a sazonalidade que marca o consumo de pescados no Brasil, mais forte no verão e com pico na Páscoa, a Fider conseguirá acomodar no mercado doméstico boa parte da atual produção que seria destinada aos EUA, levando-se inclusive em consideração que o ciclo de produção da tilápia é longo (seis a oito meses).
Mas o executivo realçou que o objetivo da companhia de ampliar seu faturamento de cerca de R$ 150 milhões, em 2024, para R$ 200 milhões, em 2025, não será alcançado. “Vamos crescer, mas menos do que prevíamos”, afirmou. A Fider exporta tilápias frescas aos EUA por avião, enquanto as tilápias congeladas e os peixes eviscerados são transportados por navio. As cargas que seguem por mar já deixaram de ser embarcadas, enquanto as que seguem por via aérea têm até quinta-feira para pousar no país presidido por Donald Trump.
“Temos fretes contratados para o transporte por avião para os próximos meses, que teremos que reincidir. A nova tarifa americana será também um problema para as empresas aéreas que levam produtos do Brasil para os EUA. Enviamos de 10 a 15 toneladas de tilápias frescas para o país por dia. E não é apenas a tilápia. Frutas como manga, por exemplo, deixarão de seguir viagem”, disse o diretor da Fider.
Paralelamente, destacou Kubitza, os produtores brasileiros de tilápia lamentam a reabertura do Brasil para a proteína importada do Vietnã, em abril. Essas importações estavam suspensas desde o início de 2024. Segundo levantamento conjunto da Embrapa Pesca e Aquicultura e da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o Brasil exportou mais de 8 mil toneladas de peixes no primeiro semestre, que renderam US$ 35,9 milhões. A tilápia representou 95% do volume, e os EUA responderam por 90% da receita total.
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