Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber, compara o mercado em que a companhia atua a um avião impulsionado por quatro turbinas, e observa que três delas estão atualmente avariadas. Os preços dos grãos estão em patamares bem mais baixos do que no início da década e, no Brasil, as taxas de juros estão elevadas e a disponibilidade de crédito, mais escassa. Mas uma quarta turbina mantém o avião no ar, e é com ela que os negócios estão atravessando a tempestade: o déficit de armazenagem, ainda uma marca do agro no país.
Para a maior fabricante de equipamentos para armazenagem e soluções para colheita de grãos da América Latina, esse déficit, estimado por alguns especialistas em cerca de 200 milhões de toneladas, tem sido fundamental para assegurar os resultados observados nesses últimos anos de nuvens mais carregadas no cenário macroeconômico. Mas é também um sinal incontestável de que a rota traçada está correta, e que, quando o céu voltar a clarear, a empresa voltará mais rapidamente a sua velocidade de cruzeiro.
Nogueira contou a história das turbinas a analistas durante o Kepler Day 2025, evento realizado na manhã desta quinta-feira, na capital paulista. O executivo reforçou que o horizonte é promissor, tendo em vista a expectativa de início da queda da Selic nos próximos meses e a melhora nas condições de tomada de recursos em um prazo um pouco mais longo, mas também destacou as ações que a Kepler Weber já adotou e está implementando para continuar a avançar e oferecer retorno aos acionistas independentemente dos ventos que estejam soprando.
Para além de melhorias na gestão, que ajudam a companhia a manter um nível mais elevado de rentabilidade mesmo diante das intempéries, a diversificação foi um caminho considerado necessário para garantir novas fontes de receita e lucro. Nesse sentido, reforçar a aposta em áreas como Reposição & Serviços e Negócios Internacionais mostrou-se acertada, bem como a ampliação dos investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento para o lançamento de novos produtos. Nos nove primeiros meses deste ano, por exemplo, Reposição & Serviços representou quase 20% de uma receita líquida total de R$ 1,092 bilhão, enquanto a fatia dos Negócios Internacionais foi de 12,3%.
Com isso, a participação das tradicionais divisões Fazendas e Agroindústrias na receita, que há alguns anos era sempre superior a 70%, ficou em 62,4%, levando-se em conta que os negócios da frente Portos & Terminais completam a pizza, com 5,5%. Na área de Reposição & Serviços, quanto maior o número de projetos implantados, maior a demanda futura, e hoje a Kepler Weber conta com cerca de 270 projetos em andamento no Brasil e em outros países da América Latina. Entre os vizinhos, a Argentina, onde a empresa está presente há oito décadas, é a grande estrela do momento, dada a retomada de investimentos no setor de agronegócios.
Isso não significa, porém, que as divisões Fazendas e Agroindústrias perderão seus postos como locomotivas da Kepler. Mesmo em um ambiente macroeconômico difícil, novos projetos nesses segmentos continuam sendo fechados, e uma das maiores alavancas tem sido o etanol de milho. Ontem mesmo a companhia anunciou o fechamento de mais um grande contrato nesse segmento, desta feita com a São Martinho, e construirá para a cliente em Montividiu, em Goiás, uma unidade de armazenamento e beneficiamento de milho com capacidade para 240 mil toneladas.
Paralelamente, novos equipamentos lançados pela companhia há cinco anos ou menos já colaboram com entre 10% e 15% do faturamento, e novas áreas de atuação, como a de aluguéis de silos de armazenagem, continuam a ser exploradas. Também a área de conectividade ganhou peso nos negócios, sobretudo a partir da aquisição da Procer, que oferece serviços digitais para o armazenamento de grãos com foco em ganhos de eficiência e redução de riscos. Parcerias com instituições financeiras e seguradoras para crédito e proteção de seus clientes no campo também fazem parte da estratégia de crescimento da Kepler.
Em tempo: a proposta recentemente apresentada pela controladora da Grain & Protein Technologies (GPT) para uma fusão entre esta e a Kepler Weber não esteve entre os temas tratados no evento de hoje. A GPT é uma fornecedora global de equipamentos para armazenagem de grãos e sementes e de sistemas de alimentação, ventilação e controle para a produção de proteínas, e fatura cerca de US$ 1 bilhão por ano.
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