Recomposição da oferta devolve preços internacionais do cacau a patamares “normais”

Segundo análise do Itaú BBA, recuperação da produção deverá ganhar mais força na safra 2025/26
Fernando Lopes
(Foto: Pedro Guerreiro/Ag.PArá)

Após três safras de déficit, o mercado global de cacau iniciou um processo de normalização no ciclo 2024/25, quando houve pequeno superávit, da ordem de 75 mil toneladas, e esse movimento tende a ganhar força em 2025/26, desde que as condições climáticas continuem favoráveis no oeste da África, região que lidera a produção mundial. 

Em cenário divulgado na semana passada, a Consultoria Agro do Itaú BBA lembra que, de acordo com a Organização Internacional de Cacau (ICCO), a produção global cresceu 11% em 2024/25, para 4,7 milhões de toneladas, puxada por avanços na Costa do Marfim e em Gana, que lideram a oferta. Na Costa do Marfim, o aumento ante 2023/24 foi de 10,5%, para 1,85 milhão de toneladas, enquanto em Gana chegou a 33,6%, para 600 mil toneladas.

A moagem, por sua vez, ficou em 4,6 milhões de toneladas, e, com isso, os estoques finais subiram para cerca de 1,3 milhão de toneladas, elevando a relação entre estoque e uso para 29,2%, um nível mais confortável do que aquele de 2023/24, que motivou incremento de preços e retração da demanda.

“Do ponto de vista do mercado, essa recomposição é importante por dois motivos: primeiro, porque quebra a sequência de déficits que vinha pressionando o preço e,segundo, ocorre em um contexto em que a demanda (moagem) caiu 4,2% ano a ano, evidenciando que o mercado respondeu ao choque anterior com retração do consumo industrial, o que reforça o caráter cíclico e a sensibilidade do cacau ao nível de preço”, destacou o Itaú BBA.

Antes de 2024, a tonelada do cacau passou anos sendo negociada entre US$ 2 mil e US$ 3 mil na bolsa de Nova York. Depois da queda da produção no oeste da África, os preços romperam a barreira de US$ 10 mil entre o fim de 2024 e o início de 2025, e em meados do ano passado teve início uma curva de queda.

No último mês de fevereiro, a tonelada chegou a ser negociada por menos de US$ 3 mil, o que não acontecia desde 2023, mas os preços seguiram bastante voláteis, oscilando entre US$ 3 mil e US$ 4 mil, “refletindo um mercado que saiu de um ambiente de escassez aguda para uma dinâmica de acomodação de preços”, como realçou o banco.

“O recuo dos preços internacionais em 2026 está diretamente ligado ao enfraquecimento da demanda industrial medido pela moagem. Na Europa, o quarto trimestre de 2025 registrou 304,5 mil toneladas, queda de 8,3% ano contra ano, e o total de 2025 ficou em 1,3 milhão de toneladas, retração de 5,9%, no menor nível anual desde 2015, sinalizando destruição de demanda após o choque de preço”.

No Brasil, a moagem caiu 14,6% em 2025, para 195,9 mil toneladas, segundo dados da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), enquanto o recebimento da matéria-prima pelas indústrias cresceu 3,7%, para 186,1 mil toneladas. Os preços ao produtor foram pressionados, mas nem por isso o chocolate ficou mais barato.

“A inflação do chocolate segue amplamente descolada da inflação geral, mesmo diante da recente correção nos preços do cacau no mercado internacional. Em fevereiro de 2025, enquanto o IPCA acumulava alta de 5,1% em 12 meses, os preços de chocolate em barra e bombom avançavam 16,5%. Já em fevereiro de 2026, esse descolamento se aprofundou: o IPCA desacelerou para 3,8% no acumulado em 12 meses, enquanto a inflação do chocolate atingiu 26,4%”, pontuou o Itaú BBA.

Na visão dos analistas da Consultoria Agro do banco, o alívio para o consumidor final no Brasil deverá ser lento, mantendo o chocolate na lista dos “vilões da inflação”, como se viu nas recentes compras para as comemorações da Páscoa. 

 

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