A guerra e o agro brasileiro: ameaça para fertilizantes, milho, carnes e açúcar

Itaú BBA analisa os reflexos da guerra no Oriente Médio sobre o setor no Brasil; fretes e seguros marítimos já subiram
Fernando Lopes

Embora o Brasil seja um grande importador de fertilizantes e compre boa parte dos nutrientes derivados do nitrogênio de países do Oriente Médio, a escalada dos conflitos na região deverá ter reflexos limitados sobre o agro nacional no curtíssimo prazo. Se as turbulências avançarem por semanas ou meses, contudo, o planejamento de compras dos produtores rurais, sobretudo para o plantio das próximas safras de trigo e de grãos de verão, tende a ser prejudicado, tanto do ponto de vista de disponibilidade quanto de preços, também levando-se em conta que fretes e seguros marítimos já subiram por causa da guerra. 

O alerta é da Consultoria Agro do Itaú BBA, que ontem divulgou um amplo relatório sobre o que está em jogo nesse campo quase ao mesmo tempo em que um submarino dos Estados Unidos afundava uma fragata do Irã a mais de 300 quilômetros do Golfo Pérsico, num sinal de que uma solução para o fim dos ataques e contra-ataques envolvendo os dois países, e pelo menos outros dez, poderá demorar a ser encontrada.

“O Brasil não se encontra no pico de compras de nitrogenados neste momento do ano, o que permite uma postura mais cautelosa na formação de estoques. Ainda assim, uma escalada prolongada do conflito pode comprometer o planejamento da próxima safra, elevando o custo por hectare e deteriorando as relações de troca, especialmente em culturas intensivas em nitrogênio, como milho e trigo”, alertou o Itaú BBA. Para a safrinha de milho deste ciclo 2025/26, que está em fase de semeadura, as aquisições de fertilizantes já foram praticamente concluídas.

Para a safra de verão da temporada 2026/27, realçou a Consultoria Agro do banco, cerca de 30% do volume necessário foi comprado até o momento, ante 40% na média dos últimos anos. “Nesse contexto, o produtor se vê diante do dilema entre antecipar novas aquisições, diante do risco de restrições de oferta, ou postergar as compras na expectativa de condições de preço mais favoráveis”, realçaram os analistas do Itaú BBA. Eles ressalvaram que, nesse contexto, a reativação de fábricas de fertilizantes nitrogenados no Nordeste pode ser um alento, bem como a diversificação de fontes de suprimento e o uso de produtos alternativos, como o sulfato de amônio.

Além disso, lembrou o Itaú BBA, o Oriente Médio também é um destino importante para as exportações do agronegócio brasileiro. A região é um dos principais destinos dos embarques de milho, carne de frango, carne bovina e açúcar. No caso do milho, por exemplo, o Irã representou 30,9% do valor total das exportações do Brasil em janeiro, ao passo que os Emirados Árabes Unidos lideraram as compras de carne de frango e açúcar brasileiros  “Até o momento, analistas não projetam ruptura relevante no fluxo comercial, mas alertam para o risco de aumento de custos logísticos e necessidade de rotas alternativas, caso o fechamento ou a insegurança no Estreito de Ormuz se prolonguem”, observou o banco.

Ainda assim, cargas de proteínas animais exportadas pelo Brasil ao Oriente Médio têm enfrentado problemas para chegar a seus destinos, como notou Ruy Toledo Piza, especialista em agro do escritório FAS Advogados, no qual é sócio. “Estamos ouvindo falar em cargas parando nos portos”, afirmou ele. “Todos os países do Oriente Médio estão com dificuldades e enfrentam riscos logísticos”, disse.

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