Ajuste no fluxo de exportação de carne tende a mitigar danos das salvaguardas da China

Itaú BBA destaca a expectativa de ampliação das exportações brasileiras aos Estados Unidos e a vizinhos como Argentina e Uruguai
Fernando Lopes
(Crédito: Wenderson Araujo/Trilux)

As salvaguardas impostas por Pequim às importações chinesas de carne bovina tendem a pressionar as margens dos frigoríficos exportadores do Brasil e forçá-los a ajustar seus fluxos de venda. Mas, num cenário de oferta global relativamente restrita, os reflexos negativos da medida deverão ser limitados, sobretudo se a demanda dos Estados Unidos continuar firme e houver oportunidades de ampliar as vendas para mercados vizinhos na América do Sul.

As salvaguardas, baseadas em tarifas e cotas, entraram em vigor no dia 1º de janeiro, e têm por objetivo oferecer alguma proteção aos pecuaristas da China e ampliar a estagnada produção local, tendo em vista a curva ascendente do consumo doméstico de proteínas, a carne bovina entre elas. Para o Brasil, foi definida uma cota de 1,106 milhão de toneladas para 2026, com taxa de 12%, e acima desse limite as empresas terão que pagar 55% adicionais, perfazendo uma barreira total de 67%.

Como em 2025 as exportações brasileiras de carne bovina à China alcançaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, um novo recorde, uma realocação de destinos se fará necessária, como realça análise divulgada nesta terça-feira pela Consultoria Agro do Itaú BBA. A equipe do banco lembra que a produção da proteína deverá recuar no Brasil este ano, em virtude da virada do ciclo da pecuária, e o movimento reduzirá o excedente exportável, mas mesmo assim não serão poucos os desafios.

“Projetamos uma queda de cerca de 2% na produção brasileira de carne bovina em 2026, o que reduziria a oferta em aproximadamente 200 mil toneladas. Esse volume corresponde a cerca de um terço do excedente potencial em um cenário de repetição em 2026 das compras chinesas de 2025”, destacou o Itaú BBA. Um primeiro olhar põe os EUA no foco, uma vez que a oferta de gado no país continua limitada e, depois de a carne bovina se livrar do tarifaço, a expectativa é que as importações americanas sigam fortes.

O banco observa que, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o país terá um déficit de cerca de 1,3 milhão de toneladas em 2026, 100 mil a mais que no ano passado. Apesar do tarifaço, que afetou as vendas do Brasil aos EUA entre agosto e novembro do ano passado, aquele país foi o segundo principal destino das exportações de carne bovina do Brasil, com compras que somaram US$ 1,9 bilhão de janeiro a novembro, 26,7% mais que em igual intervalo de 2024 e abaixo apenas do valor dos embarques para a China, que atingiu US$ 8 bilhões.

Soma-se à expectativa de ampliação das exportações aos EUA a perspectiva de incremento dos envios de cargas a países da América do Sul como Argentina e Uruguai. Embora também exportem para a China e também tenham sido afetados por tarifas e cotas, os limites a eles estabelecidos por Pequim são superiores aos volumes efetivamente exportados em 2025, o que poderá abrir oportunidades para o Brasil. 

De acordo com o Itaú BBA, a Argentina ficou com uma cota de 511 mil toneladas em 2026, ante vendas de 436 mil toneladas entre janeiro a novembro de 2025, ao passo que a cota do Uruguai é de 324 mil toneladas, bem acima das 188 mil toneladas exportadas nos 11 primeiros meses do ano passado. “Nesse contexto, o Brasil poderia, por exemplo, abastecer o mercado doméstico da Argentina, permitindo que uma parcela maior da produção argentina seja direcionada às exportações para a China”, observaram os analistas do banco.

Em meio a esse ajuste de fluxo, destacou a Consultoria Agro, também deverá ocorrer mudanças na dinâmica das vendas, com reflexos na cadeia produtiva. “Até o preenchimento da nova cota chinesa sujeita à tarifa reduzida de 12%, é razoável esperar uma aceleração dos embarques para o mercado asiático. A depender da dinâmica da oferta ao longo do ano, não se pode descartar uma pressão um pouco maior sobre os preços do boi, especialmente nos meses tipicamente associados a um maior fluxo de abates, como a transição das águas para a seca (maio/junho) e o pico dos confinamentos (outubro/novembro)”.

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