Mais do que uma oportunidade para ampliar as exportações, o acordo fechado na semana passada entre União Europeia e Mercosul fortalece o bloco sul-americano no tabuleiro global e pavimenta o caminho para ganhos regulatórios que podem parecer intangíveis em um primeiro momento, mas que serão fundamentais para avanços em importantes discussões com consequências no campo comercial, como nos fronts sanitário e ambiental.
Em linhas gerais, essa é a opinião de Rodrigo Lima, sócio-diretor da consultoria Agroicone, para quem o novo pacto, amarrado após 25 anos de tratativas, representa um “novo ambiente” em tempos de fragilização do multilateralismo e de decisões que muitas vezes significam rupturas de relações e interrupções de exportações e importações sem avisos prévios ou justificativas técnicas.
“Trata-se de um acordo que pode facilitar a gestão e o manejo do comércio, por mais que não necessariamente garanta aumento efetivo de vendas em condições mais vantajosas”, disse Lima ao NPagro. “Mas acredito que, mesmo com salvaguardas, o acordo é bom e resultará em ganhos comerciais para o Brasil”, complementou. “As frutas, por exemplo, terão tarifa zero para entrar na UE, e isso será sensacional”.
Quase 80% dos produtos do agro exportados pelo Mercosul à UE serão beneficiados com queda de tarifas de importação no bloco europeu nos próximos anos. Além das frutas, café solúvel, pescados e óleos vegetais estão nesse grupo, enquanto outros, como as carnes bovina e de frango, terão que se adequar a cotas estabelecidas pelos europeus. Em contrapartida, fortalezas da UE como os queijos tendem a ter maior facilidade para entrar no Mercosul, o que já é considerado uma ameaça aos produtores locais.
“Embora não provoque impactos expressivos no dia a dia do produtor rural brasileiro, o acordo é importante para inserir o Mercosul em um contexto mais amplo de integração internacional e para destravar, ainda que de forma gradual, novas oportunidades comerciais no longo prazo”, realçou a Sociedade Rural Brasileira (SRB), em comunicado. Segundo a SRB, a UE sabe da competitividade do Brasil no agro, mas também reconhece que o país não é um concorrente relevante em produtos agroindustriais de maior valor agregado.
A entidade chama a atenção, porém, para as diversas travas previstas no acordo para proteger cadeias produtivas europeias, como nas carnes bovina e de frango, e para os mecanismos de salvaguarda que podem ser acionados caso os volumes exportados ultrapassem determinados limites. Mas, mesmo assim, comemorou a conclusão das negociações.
“Em um cenário internacional marcado por tensões comerciais e rearranjos de alianças, o entendimento entre Mercosul e União Europeia pode fortalecer relações institucionais, ampliar a previsibilidade das regras comerciais e gerar ganhos para o Brasil”, pontuou. Além disso, reforçou Rodrigo Lima, do Agroicone, o desenlace “cacifa” o Mercosul para negociar outros acordos com países e blocos, inclusive na Ásia.
A UE foi o segundo principal destino das exportações do agro brasileiro em 2025. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Ministério da Agricultura, as vendas para o bloco renderam US$ 25,2 bilhões, montante 8,6% maior que o de 2024, que representou 14,9% do total e que foi menor apenas que o dos embarques para a China (US$ 55,3 bilhões).
Conforme o ministério, os itens que mais contribuíram para a expansão das vendas do agro brasileiro para o bloco em 2025 foram café verde (+US$ 1,61 bilhão, ou 28,8%), carne bovina in natura (+US$ 427,53 milhões, ou 89,2%), milho (+US$ 286,59 milhões, ou 94,7%), fumo não manufaturado (+US$ 220,27 milhões, ou 25,4%) e açúcar de cana em bruto (+US$ 106,20 milhões, ou 44,2%).
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