A forte queda da produção de trigo no país nesta safra 2026/27, em virtude da queda da área plantada e de adversidades climáticas, e a instabilidade da oferta do cereal no front internacional preocupam os moinhos que atuam no Brasil, que alertam para uma provável alta dos preços de derivados como a farinha no mercado doméstico.
“Temos uma combinação de fatores que exige atenção de toda a cadeia do trigo. A redução da produção brasileira ocorre justamente em um momento de maior instabilidade no mercado internacional, com impactos sobre preços, logística e disponibilidade do cereal. Esse cenário aumenta a pressão sobre a indústria e reforça a importância de acompanhar de perto a evolução da oferta”, afirmou o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo), Max Piermartiri, em nota.
Segundo as estimativas mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de trigo alcançará 5,8 milhões de toneladas no ciclo atual, em queda de 26,2% ante o volume colhido na temporada 2024/25. Isso porque a área plantada recuou 20,4%, para 1,9 milhão de hectares, e a produtividade média das lavouras tende a diminuir 7,2%, para 2.996 quilos por hectare.
Com essa combinação, o país, que é um dos maiores importadores de trigo do mundo, deverá comprar no exterior 7,1 milhões de toneladas em 2026, contra 5,9 milhões de toneladas em 2025, de acordo com a Conab. Ocorre que a Argentina, principal fornecedoras do Brasil, já enfrenta problemas provocados pelo El Niño, e nesse contexto as incertezas dos moinhos são crescentes.
“Para o trigo, o excesso de chuvas no Sul da América do Sul é um dos principais pontos de atenção. Na Argentina, já há registros de queda na qualidade do trigo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) prevê redução de 19% nas exportações argentinas no ciclo 2026/2027”, observa Piermartiri. De acordo com ele, a menor disponibilidade de trigo de alta qualidade industrial, essencial para a panificação, pode levar compradores a buscar alternativas em mercados mais distantes e com custos maiores.
No Brasil, realça o Sindustrigo, as primeiras colheitas paranaenses confirmaram as expectativas e registraram problemas relacionados à ocorrência de doenças e ao excesso de chuvas. Conforme dados do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR), que reúne moinhos responsáveis por 30% da produção brasileira de farinha, a colheita no Estado cairá 21%, para 2,2 milhões de toneladas, e a necessidade de importação para suprir a demanda estadual subirá para 1,6 milhão de toneladas.
No Rio Grande do Sul, o excesso de chuvas no início da colheita também já é um fator de temor. “A preocupação não está apenas no volume produzido, mas também na qualidade do trigo que estará disponível para a indústria. As condições climáticas têm impacto direto sobre as lavouras e podem comprometer características importantes do cereal. Por isso, o cenário precisa ser acompanhado considerando tanto a oferta quanto a qualidade da matéria-prima”, diz Piermartiri, do Sindustrigo.
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